Areias Pequenas
Um pouco da História
A Comunidade Quilombola Areias Pequenas está localizada no município de Araquari, em Santa Catarina. Sua trajetória é marcada pela luta por reconhecimento e pela preservação de suas raízes e tradições.
Reconhecimento Oficial: A comunidade foi oficialmente reconhecida como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares em 1º de novembro de 2019, através da Portaria nº 169/2019. Esse reconhecimento é um marco crucial para a garantia de direitos e a valorização da identidade quilombola.
Demografia e Estrutura Familiar: De acordo com dados da Secretaria da Assistência Social, Mulher e Família de Santa Catarina, a comunidade é composta por aproximadamente 25 famílias, totalizando cerca de 125 pessoas. Essa informação nos dá uma ideia da dimensão e da coesão social dentro do quilombo.
Educação na Comunidade: Para garantir o acesso à educação, a comunidade conta com a Unidade de Desenvolvimento Quilombola Areias. Esta é uma escola pública estadual que oferece Ensino Fundamental e Médio na modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA), operando principalmente no período noturno. A escola está localizada na Rua Antônio Miguel Budal 577, na comunidade Areias Pequanas demonstrando a busca por oportunidades educacionais para seus membros.
Iniciativas Culturais e Comunicação: Um dos pontos de destaque da comunidade é a sua efervescência cultural e a busca por meios de comunicação próprios. A Rádio Web Araquadrillha, criada por jovens locais, é um exemplo notável. Com o objetivo de fortalecer a comunicação comunitária e valorizar a ancestralidade e a resistência cultural, a rádio nasceu de forma improvisada e se tornou um importante canal de expressão para os moradores. Isso mostra a força da auto-organização e da valorização da própria narrativa.
Liderança e Memória: A história da Comunidade Quilombola Areias Pequenas é intrinsecamente ligada à luta pelo reconhecimento de sua identidade. Norival Domingos da Costa, carinhosamente conhecido como Zico, foi uma figura central nesse processo. Ele dedicou mais de 40 anos à causa, sendo um dos principais líderes. Infelizmente, Zico desapareceu em 2016 durante uma pescaria na região do Canal do Linguado, mas seu legado de resistência e dedicação permanece vivo na memória da comunidade
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Griôs
O termo griô refere-se a indivíduos que são os guardiões da memória coletiva e das tradições orais em suas comunidades. Eles desempenham um papel crucial na preservação e transmissão de conhecimentos, histórias e identidades culturais. Nossa Griô se chama Rosa da Costa Machado. Confira nossa conversa:


Entrevista realizada pela acadêmica Marceli Eduarda da Costa Neves no dia 26/09/2025.
Hoje estou aqui com uma de nossas griôs da comunidade, Dona Rosa, de 68 anos. Nesta entrevista, vamos ouvir um pouco de sua história, onde guarda a memória e a tradição do nosso povo. Vamos falar sobre os pratos típicos da comunidade, as brincadeiras de infância de Dona Rosa, as músicas tradicionais que marcaram momentos de alegria, os encontros religiosos e também como surgiram essas crenças. É uma oportunidade de aprender com quem carrega a sabedoria do tempo e manter viva a nossa identidade quilombola.
Como era a infância de vocês, quais as principais brincadeiras, e se algumas delas ainda perduram nos dias de hoje?
Minha brincadeira de criança era pega-pega, brincadeira de roda,esconde-esconde, carrinho de lata, amarelinha... A gente mesmo fazia os brinquedos e brincava com outras crianças.
Dona Rosa, quem ensinou essas brincadeiras para a senhora?
Aprendi com outras crianças, vendo elas fazerem.
E a senhora procurou transmitir essas brincadeiras para outras crianças?
Sim, para os meus netos.
E qual prato típico a senhora sabe fazer? De onde veio esse prato e com quem aprendeu?
Uma ensopada de carne ou frango com mamão verde. Aprendi a fazer com meu ex-marido. Por sinal, é um prato muito gostoso.
Queria perguntar sobre a pesca do caranguejo: como funciona, em que mês começa, quando termina e como se pega?
A pesca do caranguejo começa em novembro e vai até março. A gente pega de laço ou correndo. Correndo é no dia de lua, três dias antes e três dias depois, quando ele anda.
Dona Rosa, vou perguntar agora sobre religião. A senhora é católica? Como essa fé chegou até a senhora?
Meus pais eram católicos. Aos domingos, eles levavam a gente para a igreja.
Qual igreja a senhora frequentava?
A Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus, em Araquari.
Essa igreja fazia festa ou procissão?
Sim, tinham nove novenas.
E a festa do Senhor Bom Jesus, em agosto, a senhora lembra o dia?
Sim, todo ano, dia 6 de agosto.
O que acontece nessa festa?
Tem a missa, a procissão às quatro da tarde e muitas pessoas pagam promessas.
E de onde vêm esses romeiros?
Vêm de todos os lugares.
A senhora lembra de alguns especificamente?
Sim, vêm a pé de São Francisco até Araquari e também de Joinville até Araquari.
Agora queria perguntar sobre a música. Qual música a senhora lembra da sua infância ligada à cultura da comunidade?
Eu lembro do Boi de Mamão, do Pau de Fita. Na nossa cultura também tinha o Terno de Reis, no dia 6 de janeiro, com cavalo-marinho.
E a senhora lembra alguma música do Terno de Reis?
Não lembro, mas recordo que tinha São Gonçalo também.
Bom, nossa entrevista vai se encerrar por aqui. Nós, como comunidade, queremos agradecer à senhora por nos receber em sua casa e dedicar esse tempo para compartilhar seus saberes. Que Deus abençoe e ilumine sua vida. Essa troca foi muito especial, rica em conhecimento. Muito obrigado por abrir suas portas para nós realizarmos essa entrevista.
Que Deus a abençoe, Dona Rosa.